Calmo Desassossego


Nunca consigo por para fora a minha facilidade de sonhar, nem quando tento fracassada e involuntariamente dizer pra minha mãe que vivo mais em um mundo paralelo a este, do que nele mesmo. Prefiro sonhar, se vivesse só neste mundo, algumas vezes veria apenas uma triste e cruel realidade. Porém, sei que mereço estar aqui, mas também, agora não me importa!
 
Sei que em tudo vejo algo grandioso, com um futuro promissor, onde todos os cachorros (principalmente os meus) são imortais, onde todo relacionamento é aquele perfeito pelo qual sempre esperamos, mesmo que digamos que não, onde qualquer pessoa que eu conheça vai se tornar um grande amigo(a) verdadeiro(a) sem termos para falsidade e mesquinharia. Mas quem sabe, meu mundo seja apenas meu quarto, onde ele assiste de camarote a hora que se sentir atraído, meu maiores medos, segredos, lágrimas, sorrisos, amores... todo dia, como se estivesse acabado de redescobrir o mundo e experimentar pela primeira vez os mais diversos sentimentos que deveriam apenas estar acontecendo mais uma vez.
 
Ainda não consegui explicar este tal mundo para alguém, e isso me sufoca, quem fala demais sofre de língua solta e precisa da voz, do grito, de todas as surpresas. Talvez, esse mundo inteiro que tenho dentro de mim, simplesmente não tenha explicação alguma, não deva ser esmiuçado pelo português tão mal falado e escrito ao qual me limito.
Fernando Pessoa quem me fez descobrir o que é tudo isso que eu sinto, mesmo depois de morto. Não é [in]coerência, não introspecção e muito menos candura em demasia para um mundo cão, repasso o que me fez entender a situação: "sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda na minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que lhes seja feito, e como Maquiavel, vestem os trajes da corte para escrever bem em segredo. [...] Ah!, não há saudades mais dolorosas que as das coisas que não foram!" Quando li isso apenas compreendi que não HÁ, apenas não HÁ, não posso falar de sonhos com todo mundo, porque muitos não o sabem fazer, interpretar, escutar, não se interessam. Pois a realidade pra mim não basta!



Escrito por Priscila Martins às 14h28
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